14.07

Fazer o bem – Sobre doçura

Crescer em uma família cheia de mulheres fortes deixa dois legados
complicados. Você acha que tem que ser invencível e fugir da
vulnerabilidade SEMPRE . Ser mãe amenizou essas minhas
características. Primeiro, porque a ilusão de invencibilidade foi
embora junto com a placenta🙂. Segundo, porque quando você vira um
zumbi exausto e acorda para amamentar 12 vezes por noite, você quebra
esse escudo antivulnerabilidade e aprende a pedir ajuda.
Mas crescer rodeada por mulheres fortes também deixou um legado bom. Eu fico magnetizada por mulheres assim. E com essa convivência, acabei
conhecendo mulheres dos mais variados backgrounds, com as mais
variadas lutas. Até que um dia, um amigo jornalista me desafiou a
elencar as características mais presentes nessas tais de “mulheres
fortes” que coleciono.
Comecei com o fator “doçura”. Nas minhas evidências empíricas, as
“mulheres fortes” tem em comum a doçura. Ou seja, ser pé-na-porta e
truculenta não estava relacionado a ser forte. Não importava se era
uma pescadora de Trancoso ou a CEO de uma multinacional. No “meu
livro”, mulheres fortes também são mulheres doces.
Aí, na semana passada recebi um e-mail do amigo jornalista. Um artigo
da Harvard Business Review sobre uma pesquisa com o seguinte
resultado: mulheres são “percebidas” como confiantes (no sentido de
colocar fé no próprio taco) quando são “percebidas” como competentes e
doces. E como consequencia: mulheres assim tem mais influência.
Abre parênteses. Antes que alguma feminista-da-ala-mais-conservadora
me ataque. É óbvio que, em um mundo ideal, homens e mulheres deveriam
ser “percebidos” como competentes apenas por um sistema de
meritocracia objetivo. Tô com vocês nessa aí! Fecha parênteses.

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Há algumas semanas mais uma dessas mulheres fortes e doces entrou para
a minha coleção: a Márcia Nunes. A única motogirl full-time da
Rocinha. Fomos apresentadas pelo Daniel Badauí, do Salve Comedoria. E
enquanto ela esperava as encomendas dos clientes dele ficarem prontas,
foi me contando a história dela. A Marcia comprou a primeira moto
depois de ser sorteada em um consórcio. Não sabia nem pilotar. E foi
sorteada logo no dia em que perdeu o emprego! Usou apenas o sonho como
combustível, porque nem nos amigos ela encontrou apoio. Em poucos
meses, Márcia estava subindo e descendo a Rocinha em sua moto, e os
amigos só souberam que ela tinha virado motogirl por causa de uma
reportagem. Hoje, trabalha em um dos 15 pontos de taxi que existem na
Rocinha, e entre 99 homens é a única mulher.
Ela passou e ainda passa por situações que eu chamo de
ônus-da-mulher-bem-sucedida. Porque quando você prova para o mundo que
é capaz “apesar de ser mulher”, o preconceito se apresenta com outra
cara. Já não duvidam mais da sua capacidade, começam a duvidar do seu
sucesso. Ou a mulher passou pelo teste do sofá (no sentido lato da
expressão) ou a mulher teve “sorte”. No caso da Marcia, que fidelizou
um monte de clientes e tem a agenda cheia, a chave do sucesso não
seria a competência ou a dedicação: segundo alguns, o sucesso dela
seria atribuído a uma provável vantagem financeira que ela daria para
os clientes.

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Mas não. Segundo os clientes, a Márcia capitalizou na doçura que eles
enxergam como um plus. Afinal de contas, quem gosta de gente de cara
fechada? Fidelizou por causa do cuidado que pilota a moto e porque os
capacetes estão sempre limpos, por causa da qualidade e consistência
do serviço que presta. E assim, a parte ruim de ser motogirl junto com
um bando de homens, acabou virando vantagem competitiva. Ela chegou
até a montar um ponto exclusivo para motogirls na Zona Norte!
No final da conversa, falamos sobre todas as outras coisas em comum.
Sobre filhos. Sobre relacionamentos. Sobre as unhas dela, que estavam
perfeitas. E sobre as minhas, com 1 mês sem ver uma manicure. Sobre
força. E sobre a força da vulnerabilidade.

Márcia, uma honra ter conhecido mais uma mulher forte. Forte e doce.

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13.06

Fazer o Bem – “Uma amiga por vez”

Vou confessar que torço o nariz pra alguns extremismos feministas. Tenho dois problemas com esta nova onda de feminismo. O primeiro: colocar a mulher *sempre* no papel de vítima e colocar o homem *sempre* no papel de algoz. O segundo: etiquetar todos os comportamentos escrotos (pardon my french) dos homens como machismo. Gente, às vezes, o cara só foi grosso com você porque ele é grosso mesmo, não porque ele é machista! Às vezes, seu chefe vai dar um feedback pesado sobre o seu desempenho, e pode ser que o motivo seja que você realmente precise de um feedback pesado; e não porque ele é machista! Tá?! Pode ir guardando as hashtags.
Corta para uma conversa com a minha filha de 6 anos, a Bibi. Há poucos dias Bibi me perguntou o que era feminismo. Eu não podia elaborar demais e, muito menos, impregná-la com as minhas impressões. E, justamente por isso, no esforço irônico de ser simples, eu saí daquele bate-papo com a definição de feminismo que me encanta: igualdade. Tipo Bela Gil: você pode substituir feminismo por igualdade, por exemplo!

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Aí, vem a Bibi, mais uma vez, com uma nova pergunta: “E sororidade, mamãe?” Como a minha geração já está acostumada a receber perguntas do tipo onde-foi-que-você-ouviu-isso-minha-filha?, sigo eu para tentar outra explicação simples. “Bibi, sabe a sua melhor amiga? Você quer que ela seja feliz, não quer? Que coisas boas aconteçam na vida dela. E se ela cair, você vai estar lá pra dar um abraço nela, não vai?”.
Entra a Sassá na história. Ou, Sabrina Gallier, para os não íntimos. A Sassá é a minha amiga que pratica sororidade antes mesmo desse termo ter virado cool e estar na boca de meninas de 6 anos de idade. Ela faz isso com as amigas – e se tem 3 amigas precisando muito dela, ela tem a especial habilidade de entender quem precisa mais dela. E com quem não é amiga ainda, ela presta atenção. Entende como pode fazer feliz, como pode entrar um “empurrãozinho merecido” e, principalmente, se dispõe a dar um abraço-depois-da-queda.
Tenho várias histórias pra contar sobre a Sassá. Mas as de sororidade tocam muito o meu coração, principalmente, porque ela esteve lá e mobilizou um bando de mulheres para me dar abraços-depois-da-queda.
Tem a história da Camyllinha, que era recepcionista do prédio da start-up da Sassá. A Camyllinha ficou marcada porque era uma recepcionista simpática e proativa. Hoje, a Camyllinha é do comercial da start-up da Sassá, com uma trajetória brilhante pra contar e um futuro bem diferente pra trilhar. Se não fosse a audácia da Sassá em ter contratado a Camyllinha, ter investido na carreira dela e até no crescimento pessoal, o que seria da Cammylinha? Isso é sororidade.

FEMINISMO-SORORIDADE-JUNTAS-SOMOS-MAIS-FORTES
 

E tem a história das várias máfias. Há 1 ano e meio, Sassá e eu tivemos um jantar de 3 horas. Com quantas pessoas você consegue conversar por 3 horas, fazer uma troca e sair realmente inspirada? Esse jantar marcou a nossa vontade de chamar outras mulheres que a gente conhece do tipo rende-conversa-de-3-horas-e-te-inspira e criar uma mafia. À essa, demos um nome: The High Heel Mafia. Nos encontramos esporadicamente, trocamos ideias sobre trabalho, formamos parcerias entre as empresas, etc, etc e etc. Isso também é sororidade!
Há algumas semanas, cheguei ao grupo chamado “Doidas de start-up”. Coisa da Sassá. Enquanto a gente se apresentava, eu até me emocionei. Tem algo tão parecido no enredo de vida de cada mulher. E é por isso que quando a Bibi me perguntou: mas porque sororidade é só coisa de menina? Eu não soube articular e tive que soltar uma frase com cara de resposta de uma menina de 6 anos: “porque sim, Bibi”

 

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